Uma visão muito pessoal
1 - A primeira reunião
No aconchego da minha casa, gozando a merecida jubilação, aí por volta de julho de 2001, recebo um estranho convite para um encontro, com almoço e tudo, na Escola 2+3 de Corroios, convite dirigido a todos os professores aposentados do ensino preparatório e secundário da AP 14…
Levei o convite à guisa de mais uma proposta de convívio e distração para matar saudades do ambiente da escola e nada mais… Recebidos pelo prof. Álvaro Sendas, Presidente da Direção ao tempo, lá encontrei outros nomes sonantes, senhores presidentes, António Veríssimo e Manuel Pires. Almoçámos alguma «carne à jardineira» no refeitório da Escola, um pouco constrangidos no meio de tantas caras desconhecidas… Éramos mais de 30 os felizes aposentados presentes, aqueles que tinham dado visibilidade à trupe dos “reformados”… Sim, parece que dantes não havia esta classe de gente. Era agora que iam surgir fornadas de professores aposentados, dada a democratização do ensino, que trouxe para a escola muitos mais alunos e seus professores acompanhantes…
O almoço decorreu com toda a normalidade. Não havia toalhas, centros de mesa adornados de flores e papelinhos com dizeres poéticos, nem ninguém preparara a sala a prever o nascimento esplendoroso de qualquer movimento salvífico… No mínimo, íamos tentando arranjar conversa e simpatia com os estranhos que nos calharam ao lado e à frente, nada que assustasse muito quem passou 30 ou 40 anos enfrentando seres desconhecidos todos os anos…
E veio o encontro após o almoço. Aí, a conversa derivou para assuntos mais sérios. Os dirigentes da AP 14 (Área Pedagógica n.º 14), que juntava todas as escolas do concelho, exprimiram o desejo de criar um grupo de dinamização que pudesse trazer novidade ao isolamento dos reformados, um traço de união e de solidariedade que nos facilitasse a vida de relação. Alguém referiu que os reformados do 1.º ciclo se reuniam num almoço anual. Podíamos encostar-nos a eles, porque não? Vieram apelos às nossas qualidades de trabalho e de liderança, apontaram-se nomes dos presentes dispostos a colaborar, resultando daí um registo de dez voluntários. E eu no meio deles!...
De alguns, nunca mais lhes vi a sombra. De outros soube que, mais tarde, disseram que podiam ter sido presidentes (mas como? Se nem sócios chegaram a ser?...). Restaram dois: o Álvaro Sendas, que presidiu à Assembleia-geral da Casa do Educador durante dois mandatos, e eu. E porquê eu? Talvez o resto da história consiga dar resposta.
2 - Os sete almoços do 1.º ciclo
Pelas minhas contas, foi em 1997 que a Direção Escolar do Seixal iniciou a tarefa de juntar os reformados a ela ligados num almoço anual de confraternização. Presidia à iniciativa a Prof.ª Augusta Rodrigues, Delegada Escolar ao tempo.
Tudo era preparado com pompa e circunstância. A Câmara Municipal apadrinhava a iniciativa. Fazia-se uma aguarela alusiva ao acontecimento para perpetuar o momento, até se fazia uma miniexposição com trabalhos dos professores artistas, montada e desmanchada no mesmo dia por exigência do restaurante. Nas mesas, papéis decorativos a relevar a festa e uma prendinha para cada um dos comensais… E quem pagava? Eram os próprios aposentados, naturalmente, que a Câmara já gastava o dinheiro no mês do idoso, outubro, onde alimentava de festa e comida quase um milhar deles, alguns ainda pouco idosos e muitos acompanhantes…
Dois ou três de nós resolveram avançar e participar no repasto de 2001. E repetimos em 2002, já com o apoio expresso da CES, a associação nascente… Festas bonitas, com certeza, mas demasiado fugazes para tanto foguetório. Decorridos anos, ainda se fala com exaltação desses almoços, que «iam alimentando o sonho» de constituirmos uma associação, um espaço de encontro dos professores para além da escola. A verdade é que se andou a sonhar durante seis anos e ninguém deu o passo para realizar o tal sonho…
Os professores do 1.º ciclo cultivam entre si uma relação mais próxima que os dos outros ciclos. Habituados a colaborar e conviver anos a fio no mesmo espaço, em iniciativas conjuntas, eles relacionam-se mais uns com os outros e cultivam o sentido de camaradagem e de classe mais que os outros… Nas escolas preparatórias ou secundárias, a dispersão dos professores por várias turmas, o saltitar, hora a hora, de classe e de ano dispersam-nos de tal modo que é difícil conseguirmos o sentido do coletivo. Quando muito, constituem-se grupos de amigos em razão das disciplinas lecionadas, dos horários aceites, das idades ou da proximidade geográfica…
Acontece ainda que, ao contrário dos restantes ciclos em que a hierarquia se dilui até ao ministério, no primeiro ciclo havia uma chefia concelhia, uma Delegação que acompanhava de perto a vida das escolas e dos professores. Daí a «necessidade» de todos fazerem boa figura e acompanharem os passos da Delegada. Por isso, foi do primeiro ciclo que mais adesões vieram quando se passou à ação e se deram os primeiros passos no sentido da criação da Casa do Educador…
3 - Primeiros passos da nova associação
Quando se parte do zero para criar qualquer coisa, andamos por ali a desbravar terreno sem saber bem o que se vai plantar. Foram assim os primeiros tempos, com reuniões de uns tantos voluntários sem experiência associativa. Uma coisa é a vida na Escola, outra são as diligências e burocracias necessárias para pôr de pé uma associação. A liberdade de associação que a Constituição consagra obriga a muitos formalismos legais, para sermos reconhecidos.
Eu já estava envolvido há anos na direção de outra associação, o CEFEM – uma associação de índole cristã para apoiar e promover excluídos, nomeadamente ciganos e imigrantes africanos. Mesmo assim, pouca era a minha tarimba… Mas tinha ali uma boa ajuda. E foi isso que fez com que nos primeiros tempos eu me sentisse com um olho aberto em terra de cegos!
Após alguns encontros informais na Delegação Escolar do Seixal, com sede na Amora, durante o ano de 2001, foi em 2002 que se deram passos reais no sentido de criar a nova associação. A partir de um Grupo Pró-associação, constituiu-se um Grupo Dinamizador que foi passando a ideia para as escolas, especialmente para os seus dirigentes, no sentido de conseguir adesões à iniciativa. Convidaram-se professores, auxiliares da ação educativa e administrativos e, finalmente, em 11/05/2002, na presença de 98 aderentes, Presidente da Câmara e Vereadora da Educação, reunidos na Escola n.º 1 de Miratejo, foi aprovada por unanimidade a Comissão Diretiva Provisória que o Grupo Dinamizador propusera com vista à criação de uma associação. Era um conjunto de dez pessoas, algumas bem interessantes e trabalhadoras, outras mais disponíveis para bater palmas ao trabalho dos ativos.
Dada a minha disponibilidade e algum conhecimento, era eu que me deslocava e contactava as instituições. Foi assim com o Registo Nacional das Pessoas Coletivas, com instituições associativas em busca de estatutos, com o notário ou com a jurista em questões de direito processual.
A primeira grande tarefa foi a redação dos estatutos. De maio a outubro de 2002, um grupo de cinco elementos (eu e mais quatro professores do 1.º ciclo) levou a sério este trabalho, mesmo durante os meses de verão, próprios para férias. Com três ou quatro exemplares de estatutos cedidos por associações similares, a tarefa mesmo assim foi difícil, sobretudo porque nos íamos apercebendo do rigor da lei. E tudo era discutido ao pormenor, a começar pelo nome a dar à novel associação, que ficou registado como “Casa do Educador do Concelho do Seixal” (CES), o primeiro de três nomes que tivemos de levar ao Registo Nacional de Pessoas Coletivas.
Posso dizer que trabalhei sobretudo com o Gabriel dos Santos, com bons conhecimentos de Informática. Depressa ficámos só quatro, pois uma colega desapareceu sem se despedir e nunca mais a vi na vida associativa até hoje. Com o Gabriel criei empatia e durante vários anos vivi em muito boa relação com ele. Éramos os dois únicos homens do grupo, capazes de não olhar muito às horas de trabalho e aos compromissos em casa… Depois, as surpresas da vida trucidam a normalidade das relações e um AVC apanhou-lhe todo o lado esquerdo, tornando complicada a sua colaboração com a Casa do Educador. A bonomia do Gabriel ainda me surpreendeu quando, em conversa, ele se alegrava por ter ficado com a mão direita capaz de trabalhar no computador! E ainda trabalhou… Passando a viver na casa de uma colega que lhe prestava ajuda, ele enviava por correio electrónico o seu trabalho. Obrigado, amigo! Os anos vão passando e hoje ninguém sabe quem é o Gabriel. Não fora o Facebook, eu próprio nada saberia dele, pois as distâncias e o envolvimento familiar nem sempre ajudam… Alegrava-me muito vê-lo a explorar a sua veia poética, a que colava os quadros que pintou enquanto pôde, ligando-se de modo recorrente às paisagens e valores da Beira (serra da Estrela), onde ele nasceu para a vida.
Finalmente, em 19 de outubro de 2002, no Auditório do Centro de Formação Profissional do Seixal, Rua Infante D. Augusto, Amora, foram aprovados os estatutos que tinham sido enviados para os 98 aderentes, que nós chamávamos pré-associados. À última hora, ainda foram retocados, por sugestão da jurista avençada da Câmara Municipal, mas tudo se decidiu conforme a lei. Desta vez, já éramos só 34 votantes. E o prof. Álvaro Sendas teve mesmo necessidade de publicamente justificar a ausência dos professores do preparatório e secundário, que não estavam muito dispostos a gastar tempo e dinheiro nestas coisas. Nessa reunião, foram ainda aprovados o Regulamento Eleitoral e o montante da joia e da quota anual a pagar pelos associados, que apenas foi alterada passados 22 anos.
Mas como é isso possível? Manda a verdade que diga que em 2006, quando entrámos no segundo mandato, a direção a que eu presidia propôs a subida de quota numa assembleia-geral. Mas foi entendido por alguns presentes que a CES não prestava aos sócios no ativo serviços que justificassem o aumento das quotas. As atividades da associação dirigiam-se mais aos aposentados. Assim, se precisávamos de mais dinheiro, que se cobrasse mais aos que beneficiavam das iniciativas da CES. E foi essa a opinião prevalecente até hoje. Passou a ser normal cobrar aos não-sócios uma taxa extra quando se inscrevem nas viagens e visitas de estudo.
4 - Oficialmente, nascemos como associação em 28/10/2002, com a celebração da escritura pública no notário Farinha Alves, em Setúbal, meu amigo de longa data, companheiro de juventude, que é a fase em que as amizades se firmam para sempre. Afastados por muitos anos sem sabermos nada um do outro, esta escritura permitiu o reatamento da nossa amizade pura, desinteressada e alegre. No ato da escritura, estiveram presentes seis pessoas. A foto colhida no momento, e que ilustra a Folha Informativa n.º 3, mostra todas as caras muito sérias, exceto a minha. Porque será? A minha boa disposição tinha muitas razões: - conseguíamos finalizar o primeiro passo da Associação; - sentia-me num ambiente cheio de longas e felizes recordações, que o Farinha Alves me inspirava; - e todas estas atividades iam favorecendo o sentimento de autoestima e o gosto de viver como aposentado…
E porque fomos a Setúbal? Muito simplesmente porque os cartórios do concelho nos obrigavam a marcar a escritura para muito mais tarde!
Em 2 de fevereiro de 2003, é publicada no Diário da República a súmula dos estatutos da Casa do Educador. Tínhamos agora seis longos meses para prepararmos as primeiras eleições dos corpos sociais.
Ainda andávamos a sonhar… Na Folha Informativa n.º 3 (um conjunto de duas páginas A4), aparece por nove vezes a palavra “sonho” ou seus derivados. Acho que foi sonho a mais, sobretudo foi sonho pouco consistente, pouco realista, nomeadamente quando se fala de equipamentos destinados a proteger os sócios na situação de velhice ou invalidez. A meu ver, só a boa relação que a Presidente, como Delegada Escolar, tinha com as entidades autárquicas fazia pensar que por ali era possível adquirir algum apoio substancial para os nossos “sonhos”. Muito cedo se começou a falar de um terreno que a Câmara nos ia oferecer para construirmos um lar. Mas aqueles tempos já não eram propícios. A Câmara começava a ser vista como grande gastadora de dinheiros que faltavam… E os apoios à nova associação só com o passar dos anos passou a ser consistente. Tivemos de provar o que valemos!
Desde o início deste projeto, as reuniões de trabalho realizavam-se habitualmente na sede da Delegação Escolar do Seixal, Rua Dr. Emídio Guilherme Garcia Mendes, na Amora. Após a formalização jurídica da Associação, que nos estatutos tinha como residência a supradita morada, chegou a altura de legalmente podermos utilizar aqueles espaços, depois de formalmente fazermos o pedido à Câmara.
Estava a Delegação Escolar em fase de liquidação, devido à alteração da orgânica escolar que o Ministério da Educação levou a efeito em 2003, creio eu. Esta encerra em dezembro de 2004 e a sua ex-delegada, profª Augusta Rodrigues, continua como a presidente da CES. Assim, por acordo com a Câmara, aquele espaço e respetivo recheio foram sendo utilizados por nós para as reuniões dos responsáveis, até que oficialmente os espaços foram distribuídos por duas entidades: a sala maior, onde funcionara a secretaria da Delegação, foi para a Escola Básica n.º 1 de Amora, e para a Casa do Educador ficavam a outra sala e a cozinha com uma pequena casa de banho. A casa de banho maior, à entrada, ficaria como serventia comum das duas entidades.
5 – As primeiras eleições
Depois de termos passado por ser um Grupo Pró-Associação e por uma Comissão Diretiva Provisória, aprovados os Estatutos e o Regulamento Eleitoral, chegava o momento de escolher os primeiros órgãos sociais da Casa do Educador do Concelho do Seixal. A Assembleia Eleitoral teve lugar na mesma Escola n.º 1 de Miratejo em 6/06/2003, em que votaram muitos dos 150 (?) pré-associados. Para que conste, nomeio os primeiros elementos dos três órgãos sociais: Assembleia geral – prof. Álvaro Sendas, Direção – prof. Augusta Rodrigues, Conselho Fiscal – prof. Maria Fernanda Jacinto.
Naturalmente, os espaços eram curtos para os nossos sonhos, mas já davam para desenvolver «atividades de convívio, lazer e ocupação dos tempos livres». Célebres ficaram as quartas feiras com o chá e «conversas à solta» das 15h às 18h, que era no princípio o tempo de que dispúnhamos no contexto da Delegação Escolar. Depois abrimos mais dias e horas. E depressa nos ocupámos com as viagens e visitas de estudo ao perto e ao longe…
Em 2006, começa um novo mandato. A Direção a que eu presido volta-se mais para a comunidade e imediatamente começa a lançar a ideia da criação de uma Universidade Sénior, que iniciou as aulas em 15 de janeiro de 2007. Logo a seguir, graças sobretudo ao querer da prof. Antonieta Henriques, criámos nova valência, a Cesviver, destinada a pessoas mais idosas.
Por ali nos mantivemos até 20 de dezembro de 2008, data em que nos mudámos para as atuais instalações na Rua Cons. Custódio Borja, Amora.
Uma parte da cozinha passou a ser a sala da Direção, isolada por um biombo. Na outra parte, havia atividades – pintura, manualidades, cursos de Informática e mais... E no corredor, entre a cozinha e a sala, funcionava a Galeria de Arte para dar a conhecer os trabalhos dos nossos artistas e outros. E foi também ali que instalámos o primeiro funcionário, o Sr. Edmundo, que o Centro de Emprego nos cedeu como POC, pagando nós apenas os subsídios de refeição e de transporte.
Bem me lembro de ter escrito então que andávamos «afogados em gente». Quantas horas gastei à procura de salas em escolas e instituições para albergar alunos da Unisseixal? Valeu a pena? Sim, valeu! Arrependido, nunca! Cansado, sim. Alegre, em extremo, sobretudo por ver colegas meus a fazer melhor que eu.
E de semente pequenina nasceu esta grande árvore capaz de dar sombra a muitos… A maior alegria que tenho é ver que o que alguns começaram teve continuadores fortes, capazes de prosseguir a obra…
António Henriques