UM REI MAQUIAVÉLICO E UMA RAINHA CONDENADA:

ANNA BOLENA NO SÃO CARLOS

Por: Mário Lopes

 

Trinta e três anos depois, Anna Bolena volta ao São Carlos, numa encenação de Graham Vick com direcção musical de Giampaolo Bisanti. O maestro italiano diz-se "abençoado" por ter a soprano Elena Mosuc naquela que considera uma das "óperas de génio" de Donizetti.

O plano inclinado do palco em várias cenas acentua a desigualdade de forças e a inevitabilidade da queda. Tal como o denuncia o cavalo dourado em posição de ataque, patas dianteiras erguidas, que monta Enrico, ou seja Henrique VIII, perante o trote daquele outro, prateado, em que se senta uma Anna Bolena ainda ignorante do destino que lhe está traçado. “O céu e a terra têm que saber que te amo”, dissera antes o monarca, rei lascivo e maquiavélico de barba ruiva e vestuário flamejante, à sua amante, Giovanna Seymour, mulher torturada pela culpa mas incapaz de se deter perante ela. “Gemo e choro, mas o amor não é sufocado pelo meu pranto”, confessará no início do II Acto.

Esta é a história de Anna Bolena, segunda mulher de Henrique VIII, rei de Inglaterra entre 1509 e 1547, fundador da Igreja Anglicana e célebre pela mortandade provocada nas mulheres que desposou (seis no total). Esta não é verdadeiramente a história de Anna Bolena. É a Anna Bolena de Gaetano Donizetti, a tragédia lírica, desviada da verdade histórica em favor de maior impacto dramático, que transformou o grande compositor do bel canto num dos mais célebres e requisitados do seu tempo. Estreada em Milão em 1830, foi a primeira ópera daquele que viria a ser conhecido como o ciclo das Três Rainhas, completado com Maria Stuarda e Roberto Devereux (Conde de Essex e amante de Isabel I).

Anna Bolena chegou a Portugal quatro anos depois da estreia, marcando a reabertura do São Carlos, então Real Teatro, depois da pausa nas suas actividades provocada pelas Guerras Liberais. Teve a sua última apresentação naquele palco em 1984 e ali regressa agora numa produção de Graham Vick – a estreia é este sábado, às 20h, repete à mesma hora nos dias 6, 9 e 14 de Fevereiro; dia 12 será apresentada às 16h. A direcção musical é de Giampaolo Bisanti, maestro principal do Teatro Petruzelli de Bari e que, no São Carlos, dirigiu na última temporada a Messa de Requiem de Verdi. O baixo turco Burak Bilgili é Enrico VIII, Jennifer Holloway é Giovanna Seymour e Anna Bolena será interpretada pela romena Elena Mosuc, uma das mais respeitadas sopranos do nosso tempo.

Em conversa com o PÚBLICO no intervalo do ensaio geral, quinta-feira, Giampaolo Bisanti explica que, se esta ópera teve vida menos constante em palco depois “da grande difusão que se seguiu à estreia”, ou, mais tarde, depois de, em 1957, “ter sido tocada por Maria Callas”, tal se deve “à dificuldade, nos nossos dias, de encontrar os cantores certos”. Diz sentir-se, por isso, “abençoado” por Elena Mosuc se ter juntado à produção. “Ela é, sem dúvida, umas das melhores belcantistas para Anna Bolena neste momento." No dia em que assistimos ao ensaio, Elena não estava presente. “É tão difícil que quis ter dois dias [de folga] antes da estreia”, explicou o maestro, acrescentando: “Mas cantou toda a ópera ontem [quarta-feira] e fez um trabalho incrível, tal como o Coro [do Teatro Nacional de São Carlos] e a Orquestra [Sinfónica Portuguesa], que são excelentes, muito sensíveis a esta música."

Em declarações à Lusa, Elena Boluc classificou o papel de Anna Bolena como um de “absoluta prima donna”, dado tratar-se de um ”papel muito acrobático, exigindo a utilização de todos os registos”. Giampaolo Bisanti concorda. E acrescenta outra razão pela qual a exigência é maior na ópera de Donizetti. “Em Norma [de Bellini], como em Madame Butterfly’ [de Puccini], a grande cena surge no início. Mas em todas as óperas da série Tudor [o ciclo das Três Rainhas], como noutras óperas de Donizetti, a grande cena chega no fim, quando tem de enfrentar o recitativo e ária e, principalmente, a cabaletta [Coppia iniqua]. Exige drama e agilidade. É muito, muito difícil." A orquestra, como sempre no repertório do bel canto, “será uma acompanhante dos cantores, porque a voz está sempre em primeiro lugar": "O mais importante é respeitar o volume e os equilíbrios na relação com o palco." E é precisamente ao elaborar sobre essa relação que o maestro nos dirá que considera Anna Bolena uma das melhores óperas entre as mais de sete dezenas criadas por Donizetti. “É uma das suas óperas de génio porque reúne o dramatismo e a atmosfera ao poder da música e ao respeito pelo bel canto."

Um rei maquiavélico, a sua amante, uma rainha a caminho da tragédia. Anna Bolena, a de Donizetti.

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