O mendigo

Parcas migalhas leva o mendigo,
Que arrasta penosamente o corpo débil
E transporta o sofrimento consigo
Desnudo em seu parecer frágil,
Caminha curvado, sem alento.
Ouve o sussurro abafado do seu lamento,
Que lança à caridade de alguém
Sofrendo rombos na dignidade.
Arca sozinho o desdém
Da indiferença da sociedade.
Desiludido, triste, esquecido,
Sofre humildemente calado.
Não destila ódio ou revolta,
Antes segue sereno e conformado
Com o que Deus lhe deixou reservado.
Chega exausto ao fim do dia
E, cambaleando até à cidade do cartão,
Aninha-se na cama inventada
Pela sua humilde imaginação
E tenta dormir.
O frio gela-lhe a alma já fria
E começa a tremer.
Anseia pelo dia pra tentar renascer.
E o dia começa cinzento e triste
Como triste ele se sente.
Tenta lutar mas desiste,
Impotente luta e insiste em vão.
Novamente o desprezo e a solidão
No meio de tamanha multidão,
Que apressada caminha indiferente,
A tudo o que o mendigo sente.
Alguém pára e sorri ao mendigo,
Tira uma moeda e dá-lha na mão,
Ele recebe-a agradecido cheio de ilusão.
Mais uma pinga de alento e esperança
Nasce na alma do pobre.
E assim continua iludido e ansioso
Que a vida madrasta que tem,
Lhe ponha no caminho
Alguém mais bondoso,
Que o não olhe com desdém.
E à noite renova a esperança,
Dum novo dia de mudança
Que não chega.
Volta a indiferença e o desamor,
Aumenta o desânimo e a dor,
De viver com a triste verdade
Do egoísmo da sociedade

João Alberto Bentes (Outº/2010)

   

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