Histórias de vida

A Claudia vivia numa cidade pequena, ladeada pelo "bairro" e "lezíria": era essa a desigação que nesse tempo davam às margens do Tejo.
A norte, o bairro verdejante onde a agricultura e o cultivo da vinha era o assunto primeiro nas conversas de todos os que estavam ligados á "terra".
A sul, na imensa lezíria, que além da agricultura e vinha, tinha a pesca, e onde os avieiros com as suas habitações lacustres davam àquela zona algo de beleza e poesia.
No centro desses dois polos, havia a cidade, onde estes trabalhadores iam escoar os frutos do seu trabalho, no mercado e em feiras que semanalmente se realizavam. A cidade era visitada também por imensos turistas, pois possuía uma inconfundível riqueza histórica e patrimonial, onde o estilo gótico predominava esplendoroso e belo!
Foi aí que a Cláudia nasceu e aprendeu a admirar as maravilhas da Natureza e a respeitar os seus valores. Ela tinha um avô que morava no "bairro", chamavam-lhe o "hortelão" porque a horta que ele amanhava era um encanto em verdura e variedade de produtos.
Apesar de gostar muito de viver na cidade, a Cláudia ía com o seu irmãozito, todos os domingos, visitar o avô e ver a horta, que ficava nos arredores da cidade. Como eles gostavam de admirar as nascentes de água que brotavam das minas, os tanques onde eram lavadas as hortaliças e frutas, antes de serem vendidas no mercado!
Quando havia sementeiras, ficavam boquiabertos a ver os regos que o avô abria para pôr as sementes ou as plantinhas que tirava dos alfobres. No tempo da azeitona, era vê-los a apanhar aquela que os trabalhadores varejavam para cima de sacas de sarapilheira! Era para fazer o azeite com que se fritavam as filhós...
Mas o tempo foi passando... a Claudia e o irmãozito cresceram e o avô ía envelhecendo... aos olhos deles era sempre visto como um herói...sabia tão bem tirar da terra o necessário à vida!
Com o passar dos anos, a Cláudia teve que partir para outra cidade para adquirir mais conhecimentos intelectuais, mas, nas férias, eram constantes as suas visitas ao avô e sua horta.
Num certo ano em que ela se preparava para a visita, o irmão disse-lhe: não podemos voltar lá... o avô teve de a vender! Toda a horta e os terrenos circundantes estavam destinados à construção de uma grande superfície comercial.
Ela não podia crer! Então as nascentes? As árvores e as plantas? O trabalho, que era a alegria do avô?!!!
Tens que compreender, disse-lhe o irmão afagando-lhe os cabelos, são outros valores que se interpõem aos nossos!
A Cláudia chorou amargamente... pobres valores, quando se sacrificam a beleza e a fecundidade da terra !
Ainda iremos sentir muito a sua falta! O avô olhava-a silenciosamente, e num abraço muito terno, ela murmurou-lhe ao ouvido: Obrigada avô! És o meu melhor professor!

Maria Fernanda S. Gomes Baptista
Janeiro 2011

 

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