Uma história verídica
 

A propósito de um lindo gato amarelo, que apareceu há pouco tempo, abandonado na minha rua e que o meu neto André, tentou levar para casa, mas sem êxito, veio-me à memória uma história verídica passada com uma colega nossa, professora portanto, ainda não há muitos anos.
Esta história passou-se no Alentejo e as personagens principais são um gato, o Jeremias, e a referida colega, cujo verdadeiro nome omito, a que chamarei Isabel.
Pois bem, Isabel era uma jovem professora, recém-casada, com um também jovem engenheiro, ambos naturais da Beira-Baixa.
Ele foi colocado como técnico superior, numa fábrica de celulose, que antes da construção da barragem do Alqueva aí existia e ela, numa escola, numa pequena aldeia, não muito longe do referido local.
Como companhia tinham um gato, o Jeremias, que como eles diziam, fazia parte da família e era tão meigo, tão esperto, que só lhe faltava falar.
Embora o Jeremias fosse seguido pelo veterinário e gozasse de boa saúde, quando Isabel ficou grávida, foram aconselhados a afastá-lo de casa, durante a gravidez.
O jovem casal, tão apegado ao seu animal, sofreu muito com a opção que teve que tomar e não teve outro remédio senão levá-lo para casa dos pais dela, no centro do país, o único sítio onde confiava plenamente que o seu gato seria tratado com todas as mordomias a que estava habituado.
De facto, era muito bem tratado na nova casa, mas parece que o bicho não era feliz e num curto espaço de tempo, os seus olhos brilhantes e vivaços, ficaram baços e tristes, deixou praticamente de comer, emagreceu, perdeu o pêlo e... certo dia desapareceu.
Aflitos pela perda do animal e sem explicações para darem à filha, os pais de Isabel, procuraram por todo o lado e do Jeremias, nem rasto.
Embora o desaparecimento do gato tivesse sido ocultado por algum tempo, quando ela recebeu a notícia, teve um enorme desgosto, só amenizado pelo nascimento do bebé, que entretanto veio a acontecer.
Tinha a Inês praticamente seis meses e a fazer-lhe companhia, já existia uma linda gatinha, entretanto adoptada, na tentativa de preencher o espaço vazio, que a perda do Jeremias tinha deixado nos seus corações.
Era uma manhã de Outono e Isabel preparava-se para ir para a escola, quando lhe pareceu ouvir arranhar no tapete da porta.
Não ligou, porque a nova coqueluche, estava dentro de casa.
Pouco depois, nova arranhadela no tapete, seguida de um miar, que a fez estremecer.
Parecia mesmo o miar do seu Jeremias.
Trémula, abriu a porta e qual não é o seu espanto, quando o Jeremias olhou para ela, fez o miado de sempre e que ela tão bem conhecia, deitou-se no chão de patas para o ar, como sempre fazia quando ela chegava a casa e esperou que ela o mimasse.
É caso para dizer: «E viveram felizes para sempre»!
Esta história foi-me contada na primeira pessoa já lá vão uns anos e nessa altura, embora já tivesse passado algum tempo, após o regresso do Jeremias, Isabel continuava sem explicação para o seu desaparecimento e súbito reaparecimento, por onde teria andado tanto tempo, nem como teria feito a viagem de regresso.
Pensava ela, que o seu Jeremias, tinha regressado pelos seus próprios meios, pois as unhas e a sola das patas estavam gastas, e tinha um aspecto de quem não era bem alimentado há muito tempo.
Mas como foi possível, depois de mais de ano e meio desaparecido, vencer uma distância tão grande e regressar ao sítio onde tinha sido tão acarinhado?
Isabel apenas encontrava uma explicação: os animais são os nossos melhores amigos, sabem reconhecer quem os trata bem, os acarinha e os ama e a seu modo sabem retribuir.

Maria Inácia Martins
Outubro/2010

 

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